MORRIPreguiçosa acordou a manhã.
Corre a notícia de que morri.
No interior da morte,
Durante a terrena vida, dia após dia,
Quase sem aviso, regressei ao Paraíso
No fim da longa estrada
No desfilar de sombras na aragem
Vou continuar a falar-vos, sem dor, Adeus, amigos, adeus! Até um dia!
Inédito de João Coelho dos Santos |
Maria Barroso - Uma mulher invulgarEra uma mulher que irradiava luz própria, aliada a uma aura especial e a uma força sem limites. Quando entrava num salão repleto de gente era a sua presença que o enchia. Caminhava segura de convicções, alimentadas desde o berço, que não foi de ouro. Respirava tolerância e fazia rimar liberdade com responsabilidade. A prática da sua vida resultava com naturalidade dos princípios e valores que sempre a guiaram. Era um pilar na amizade. Uma ponte que ligava margens de desencontros transformando-os em encontros. Uma rocha que se distinguia por ser simples. Marcou os lugares e as instituições por onde passou. Na arte de representar e de dizer, cortando algemas por um mundo melhor. Na formação de gerações de jovens. Na retaguarda ou na primeira linha, mas sempre por um país solidário e justo. Na presença arriscada, onde doía mais, por projetos de futuro. Na posição de mulher e de primeira-dama ao lado de um grande homem, companheiro de uma vida. Na relação tocante com os filhos, netos e demais familiares. Na ausência de qualquer rancor. Inclusive para quem a destituiu de uma grande instituição humanitária que dirigiu, apenas por ser quem era e o nome que tinha, depois de ter desenvolvido nela um trabalho de gigante . Na Pro Dignitate, a Fundação que criou e por ela fez criar paz onde havia guerras e risos onde havia lágrimas de gente que sofria. Recentemente pessoa amiga manifestou-me estranheza pelo fato de, com o seu falecimento, o povo português ter feito dela ícone. Eu não estranhei. Sempre pensei que iria ser assim em algum momento. Talvez porque tive o privilégio de ser seu amigo e de ter podido partilhar de perto muitos dos objetivos que traçou e que coerentemente vieram agora em torrente a público. Além disso, Maria Barroso tinha um nome verdadeiramente português. Vítor Ramalho
Administrador da Fundação Pro Dignitate |